sabato 19 ottobre 2013

céu







Olho para baixo e vejo os meus pés, para cima e vejo o céu. À primeira vista a distância parece curta, estico os braços mas não consigo tocar nas nuvens. Percebo então que o céu não está assim tão perto, se estivesse puxava a tua mão e encostava-a à minha cara só para te sentir mais uma vez, só mesmo para me relembrar do teu carinho. Mas infelizmente o céu está longe e tu também. Os meus pés permanecem fixos no chão e o mundo continua a rodar. O céu por agora é inalcançável, por agora continua longe, apenas por agora …


venerdì 18 ottobre 2013

Sinto dor. Traíram-me.

Sinto dor. Traíram-me eu sei, devo gostar de sofrer. Não é justo ter nascido aqui, aqui há gravidade e por isso caio demasiadas vezes. As feridas estão abertas e devido a todas as quedas já não saturam mais. Estou fraca, preciso rapidamente da cura e não a encontro, parece que querem o meu corpo, que querem me degradar aos bocados. Mas eu não deixo que isso aconteça. Isso não. Prefiro morrer antes que me matem. Está dito.

lunedì 14 ottobre 2013

Confesso que foi merecido

Gosto de andar pela rua em dias como estes. Sentir a chuva a cair aos meus pés, ouvi-la a bater no guarda-chuva furiosa por não conseguir atingir-me e sentir a humidade do ar na cara. Ri-me dela, coitada é tão insignificante que não me consegue alcançar e eu permaneço aqui debaixo do meu guarda-chuva alheia a todos os problemas. Mas aquelas ínfimas partículas de água revoltaram-se e provaram-me o contrário. Juntaram-se todas e mostraram que não são assim tão insignificantes que elas tinham algo a dizer. Conseguiram roubar-me o meu abrigo e por causa da minha presunção senti-as a todas na minha cara Não me queixei mas sei que foi merecido.    

domenica 13 ottobre 2013

O Menino da Sua Mãe

No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas trespassado-
Duas, de lado a lado-,
Jaz morto, e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.

Tão jovem! Que jovem era!
(agora que idade tem?)
Filho unico, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino de sua mãe.»

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço… deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:
“Que volte cedo, e bem!”
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto e apodrece
O menino da sua mãe

Fernando Pessoa

Fui mas já não sou

A tempestade passou e esqueceu-se de me levar. O meu corpo entrou em conflito porque não conseguiu expulsar a angústia que permanece cravada dentro de mim, foi repugnante. As minhas lágrimas foram encurraladas, os meus órgãos dilataram, os meus ossos enfraqueceram, os meus músculos murcharam, o meu coração foi racionalizado, … Mesmo assim, mantive-me contida e reservada. Não sabia o que dizer, gritar talvez tivesse sido a melhor opção, mas para quê elevar a voz num mundo em que as pessoas sofrem todas de surdez? As minhas mãos estão trémulas, estou submersa em dores, a tristeza levou-me para outro patamar, lugar esse onde eu nunca tinha estado. Não sei nada, não sei quem sou, estou sozinha. Vivo na ansia do não saber o que sei e apaziguo a minha alma apenas com a incógnita.
Hoje a batalha é diferente, tornou-se mais perigosa e mortal, não consigo lutar mais contra o meu cérebro, estou fraca e cansada, quero desligar por breves momentos. Só para poder apreciar as nuvens e o sol a bater nas folhas das árvores. Desconheço a cor das ruas e a cara das pessoas, deixou de haver alegria na minha vida. Agora, o que resta é o ar, e mesmo esse parece abandonar-me nos momentos em que os soluços ficam presos na minha garganta que berra com dor e saturação. São as metamorfoses, agora entendi, são elas que me provocam esta dor de pensar, esta saturação de tudo e de todos, foram elas que me levaram a perder a minha alma. Ela que é infinita atacou-me todas as células contaminando-as e levando-me à morte. Foi assim que fiquei presa dentro de mim, foi assim que não encontrei a saída do meu labirinto, foi assim que morri. A minha alma matou-me. Maldita.

Fernando Pessoa

 
 
"É uma vontade de não querer ter pensamento, um desejo de nunca ter sido nada, um desespero consciente de todas as células do corpo e da alma. É o sentimento súbito de se estar enclausurado numa cela infinita.
Para onde pensar em fugir, se só a cela é tudo? "
 

venerdì 11 ottobre 2013

mandamento

cranio, esqueleto, face
*agendado*
 
"Ao te curvares com a rígida lâmina de teu bisturi sobre o cadáver desconhecido, lembra-te que este corpo nasceu do amor de duas almas, cresceu embalado pela fé e pela esperança daquela que em seu seio o agasalhou. Sorriu e sonhou os mesmos sonhos das crianças e dos jovens. Por certo amou e foi amado, esperou e acalentou um amanhã feliz e sentiu saudades dos outros que partiram. Agora jaz na fria lousa, sem que por ele se tivesse derramado uma lágrima sequer, sem que tivesse uma só prece. Seu nome, só Deus sabe. Mas o destino inexorável deu-lhe o poder e a grandeza de servir à humanidade. A humanidade que por ele passou indiferente"
 
 
(Rokitansky, 1876)
 
 

domenica 6 ottobre 2013

bom domingo

Hoje vou pintar, apagar tudo da minha mente e deixar simplesmente o pincel deslizar. Abandonar o meu cérebro e observar as cores a formarem um desenho. Hoje, gostava de poder pintar, pintar o dia inteiro e esquecer todos os problemas.
  

martedì 1 ottobre 2013

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O meu cérebro está vazio, a imaginação fugiu e parece que não vai voltar. A maldita não deixou recado nem indicações de como sobreviver sem ela. Foi cruel, não pensou em mim. E aqui estou eu, no meio da aula de português, enquanto todos escrevem sobre Fernando Pessoa, junto palavras à toa sem sentido. Acho que sou um pouco como ele, não consigo sentir, estou estragada. O comboio fez de refém o meu coração, já não há sinal de vida. Sou como uma floresta queimada que demora milhares de anos para recuperar toda a sua biodiversidade que lhe foi roubada. Já não consigo respirar, estou em estado de decadência. O comboio descarrilou.